Divagando Devagar

Divagações ocasionais de uma mente reflexiva.

Ensinando no Reino Desunido 17 março, 2008

Filed under: Rotineiras — INEFFABILE @ 8:45 pm

Eu considero cada dia de trabalho como professora substituta do ensino secundário britânico uma grande aventura. Por aventura entenda situação arriscada.

Nas noites que antecedem os dias que eu ensino, muitas vezes não consigo dormir. Não é que eu passe o tempo todo me revirando na cama a pensar nos possíveis desafios que me esperam no dia seguinte. Mas eu sei que há um nível dentro de mim que, inconscientemente, se preocupa com isso constantemente.

É claro que, vira e mexe, eu me pego pensando sobre situações específicas que vivi nas salas de aula daqui. Porém, o fato é que as circunstâncias raramente se repentem e por isso, eu sou obrigada a melhorar o meu jogo de cintura diante dos acontecimentos, especialmente os desagradáveis.

Eu ensino alunos da faixa etária entre 11 e 18 anos. A série dos alunos mais jovens (year 7, de 11 a 12 anos) é normalmente a mais maleável em comparação aos outros anos. Acredito que isso seja porque os alunos dessa idade são ainda crianças com sintomas brandos da “aborrecência”. Além disso, este é o primeiro ano deles na escola secundária que, na maioria das vezes, não é a mesma escola do ensino primário.

A série seguinte, year 8, já é mais difícil. A adolescência aos 12 e 13 anos é um ente hormonal difícil de se lidar.

As coisa pioram muito no year 9, já que os alunos desta série são não só mais velhos (13 a 14 anos), como também já tiveram dois anos para se adaptar a escola secundária. Eles são mais autoconfiantes e se sentem os donos da casa. Possuem quase sempre uma atitude desafiadora, debochada e mal-criada. Esta é a serie que eu menos gosto de ensinar.

Nos years 10 e 11, os alunos estão constantemente se preparando e se submetendo a exames (GCSE) que serão importantes para a definição de seus futuros acadêmico e profissional. Em termos de comportamento, eles variam de amáveis e interessados a jovens muito problemáticos.

Os dois últimos anos (years 12 e 13) não são obrigatórios e os estudantes que permanecem na escola a esta altura, desejam prosseguir com seus estudos na universidade, colégio profissionalizante ou garantir um título básico de ensino que seja competitivo no mercado de trabalho (A Level). Estes jovens já são adultos e, em geral, estudiosos e independentes.

Como professora substituta, eu estou acostumada a trabalhar com contratos de curta duração por dias ou semanas consecutivas ou não. Raramente meses. Na maioria das vezes, eu fico sabendo onde vou dar aulas com apenas poucas horas de antecedência. Isso requer muita flexibilidade, mas também oferece muita flexibilidade em troca. Eu informo a minha agência de professores os dias que estarei disponível para ensinar e eles buscam trabalho para mim. Se eu tiver que viajar ou não puder trabalhar por algum motivo, não preciso dar maiores explicações. Simplesmente dou um telefonema rápido e vou.

Ao mesmo tempo que esse regime é bom, ele impede que eu crie vínculos com os estudantes e as escolas onde eu ensino. Por outro lado, professor secundário é muito bem pago na Grã-Bretanha e os lados positivos da profissão “supply teacher” continuam justificando a minha escolha profissional no momento.

“Supply teacher” funciona assim: eu chego cedinho na escola e lá eu descubro o que vou ensinar durante o dia. Não preciso preparar aulas, pois os professores a serem substituídos já deixaram tudo pronto. Em geral, eu dou aulas apenas de biologia e de ciências, mas se tiver que substituir um(a) professor(a) de outra matéria, não há problemas. Não fosse pelos alunos, o trabalho seria o mais “limpeza” do mundo.

Aprendi muitas expressões novas em inglês, tanto educativas como também gírias usadas pelos estudantes. Na prática, aprendi a lidar com alunos disléxicos, hiperativos, mudos, deficientes visuais e auditivos, autistas e com limitações de outras naturezas. Aqui não se faz distição de habilidades e todos os jovens compartilham o mesmo espaço na sala de aula com suas diferenças e particularidades. Todas as escolas (umas mais que outras) possuem professores assistentes que auxiliam de perto os jovens com “necessidades especiais “ (special needs) durante e depois das lições.

Faz alguns meses que eu tenho pensado em sair do ramo do ensino secundário porque é muito cansativo e tira energia e concentração que eu poderia estar empregando no meu doutorado. Mas como eu não tenho bolsa de estudos, preciso pagar minhas contas e ter dias livres para executar minha pesquisa, eu vou me segurando até pintar algo melhor.

Enquanto isso, eu sigo enveredada pelas escolas públicas inglesas, bem dentro do coração da cultura desse país, observando e interagindo de perto com o que há de melhor e de pior no cerne britânico.

 

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