Divagando Devagar

Divagações ocasionais de uma mente reflexiva.

O Espelho da Verdade 25 março, 2008

Filed under: Confissões — INEFFABILE @ 8:36 pm

Hoje eu me lembrava de uma amiga que já deve estar na virada dos 40 para os 50. Eu a conheci em 93, no mesmo ano em que me mudei do Rio para Fortaleza. Ela era a esposa do meu então orientador da graduação e eu a admirava pela sua beleza e simpatia. Na época, eu tinha apenas 17 anos e durante os anos seguintes nos encontramos em diversas ocasiões, na maioria das vezes em sua casa, em festinhas que ela e seu marido ofereciam para o pessoal do laboratório.

Naquele tempo, os colegas de trabalho eram os meus melhores amigos. Na verdade, eu praticamente não conhecia uma outra vida ou um outro papo que não fosse relacionado ao trabalho. Eu e meus amigos éramos felizes daquela forma. De tal maneira, que não entendíamos muito bem como era a vida fora daquele “mundinho”.

Ela fazia parte da turma porque era casada com o pesquisador-chefe do grupo e, por tabela, estava por dentro de todos os projetos, estudos e ações que implementávamos. Eu a considerava como minha amiga porque ela era a única pessoa do grupo com quem eu conversava sobre a vida fora dos assuntos de pesquisa e universidade.

Ela era formada em antropologia ou arqueologia, não lembro bem, havia feito mestrado, mas abdicara da carreira para seguir o marido dentro e fora do Brasil. Quando os conheci, eles já tinham uma filha adolescente e em pouco tempo ela engravidou da segunda filha. Não sei se foi uma gravidez planejada ou não, mas o fato é que a diferença de idade entre as meninas era de pelo menos uns 13 anos.

Eu sinto saudades dela e da última vez que nos vimos ela parecia estar muito bem. Foi em 2003, na minha festa de aniversário na beira da praia do Imbuhy, em Niterói. Ela estava ainda muito bonita e com o mesmo sorriso de sempre. Na ocasião, conversamos um pouco sobre meditação, Paramahansa Yogananda e o novo caminho espiritual que ela havia encontrado. De fato, na festa também havia um outro grande amigo que era seguidor dos ensinamentos do Guru e o papo ficou cada vez mais animado. Ao conhecer o meu namorado da época – um irlandês meio desajeitado – ela se mostrou aliviada por constatar que eu havia saído da relação conturbada que tivera durante anos. Mas olhando para o tal irlandês, ela comentou: “ele parece ter saído de um dos contos de J. R. R. Tolkien!”. Eu concordei acenando com a cabeça.

Depois daquele dia nós nos falamos umas duas vezes por e-mail e talvez uma vez por telefone.

A razão que a trouxe repentinamente à minha memória hoje tem a ver com uma conversa que tivemos ainda quando morávamos em Fortaleza. Ela me confessava, com um certo ar de desapontamento, como era difícil tentar fazer parte de uma roda de amigos onde quase todos eram bem mais novos do que ela. Eu nunca vou esquecer quando ela disse: “eu olho para vocês (as meninas) com seus corpinhos perfeitos e tento me comparar no mesmo nível. Isso não é justo.” Naquele momento caiu a ficha. Ela era bem mais velha do que eu e minhas outras amigas. Aquilo devia pesar para ela porque o seu marido passava a maior parte do tempo conosco, e embora eu achasse que ela não tinha motivo para se sentir insegura, eu sabia que não havia nada que ela pudesse fazer para mudar o fato de que nós tínhamos 20 e ela estava perto do 40. Ela estava se sentindo velha, senescente. Eu senti que havia dor naquela confissão e não havia nada que eu pudesse fazer ou dizer que fosse mudar aquela situação.

Os anos passaram e eu agora tenho 32. Todo mundo diz que eu pareço ter uns 25, mas o “espelho da verdade” que eu tenho em casa diz que estou longe disso. Definitivamente, nada no meu corpo é como era antes. Na cabeça, muito menos. Quero dizer, há muito mais agora.

Vendo fotos minhas antigas e fotos recentes de uma prima senti a dor do envelhecimento. Essa é uma dor crônica que afeta, sobretudo, o juízo, pois me peguei ontem estabelecendo como meta ficar com a barriga igual a dela, que tem apenas 20 anos de idade. Eu quero voltar a ter a mesma barriguinha, a mesma tendência a não engordar, a mesma medida da cintura que tinha há 10 anos atrás. Essa meta me estressa, mas como abandoná-la?

Como diria um grande amigo meu: “cada um com seus problemas”.

Me vejo hoje numa situação semelhante a da minha amiga há mais de uma década atrás. Eu me pus nesta situação conflituosa por alguma razão que eu ainda estou tentando entender. Vou continuar refletindo sobre o assunto para tentar descobrir o que é que me aflige tanto no processo natural que é envelhecer.

 

2 Responses to “O Espelho da Verdade”

  1. Lavinia Says:

    Aline, casualmente entrei no seu blog (atraves do Cassiano) e li esta “confissao”. Me lembro bem daquele dia que conversamos. Estou muito por fora dessas coisa da internet. Há tempos não entro. Hoje já estou com 55 anos! É tempo de vida, mas na cabeça, parece que a gente continua sempre a mesma.. Eu não sei usar isto porisso estou só fazendo um teste. Bj! Vina

    • INEFFABILE Says:

      Vina, sabe que somente agora re-li o seu comentário e me toquei de que vc havia dito que está com 55 anos. Querida, só posso dizer que realmente não parece de jeito nenhum. Benza Deus! Que chegar aos 55 anos que nem vc! Beijocas!!!


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