Divagando Devagar

Divagações ocasionais de uma mente reflexiva.

Dialética do sonho 14 abril, 2008

Filed under: Úbere — INEFFABILE @ 9:21 pm

 

Ontem realizei um sonho difícil e caro. Faz nove anos que me demiti da Petrobras, de lá pra cá o osso foi duro e juro que pensei em vários momentos que havia feito a coisa errada. Com mais de quarenta anos de idade, dois filhos para criar e um monte de insegurança, entre outras individualidades, oscilei constantemente entre a desistência e a confiança.

Hoje é dia treze de Junho, comemora-se o dia de Santo Antônio. Só podia ser um santo que tem fama de casamenteiro o cara que marca o começo de minha trajetória docente em uma universidade pública. As contradições são volumosas e incontáveis: não há papel para elaborar sequer a ementa da disciplina, não existe pincel para escrever na lousa, cafezinho é artigo de extremo luxo, são os professores e funcionários que se cotizam para comprar os ingredientes deste símbolo nacional, as cadeiras são velhas e cheias de pregos que chegam a rasgar as roupas dos estudantes. Entretanto, o pior é a parede do banheiro que faz divisa com a cozinha não chegar até o teto, ou seja, estando no banheiro, sentimos o delicioso cheiro do cafezinho de Dona Zita; todavia, estando na cozinha não podemos dizer o mesmo do aroma que vem exalado das necessidades fisiológicas praticas no interior do gabinete sanitário.

Porém, o movimento que estes jovens fazer para estudar já justifica minha estada por cá. Tenho um aluno de 23 anos, batizado com o nome de Carlos Abreu, que mora a 60 km de Quixadá, pela manhã, vem para a faculdade de Pau de Arara, mesmo transporte que o leva de volta para casa; por volta das 11h, ao chegar à sua casa, se banha, come e viaja mais 30 km para ensinar matemática em um assentamento.

O exemplo de Carlos é apenas mais um que me faz acreditar na importância de criar a ementa do curso de Prática de Ensino, contendo no seu interior a palavra revolução por três vezes e a expressão emancipação humana em quatro ocasiões. Esses estudantes não agüentam mais ouvir falar em cidadania, empreendedorismo, empregabilidade, sociedade do conhecimento, exclusão social e mais um monte de verbetes ideologizadores da ocasião neoliberal.

Que Toinho e sua trupe sagrada me guarde, dê-me coragem, conceda-me talento e reforce minha força, já que minha fé sempre foi muito pendular, pois o basquete é pesado e tenho que jogar duro.
Por fim, a primeira aula em Quixadá é a materialização de um sonho que deixa de ser sonhado para ser vivido no centro das contradições da realidade, portanto, negando o fato de ser sonho para existir na condição de coisa real que precisa ser enfrentada, engolida e digerida no cotidiano da militância docente. Nesse momento reflito, com efeito, sobre minhas aspirações que de fato são sonhos: as não realizadas; será que ainda não aprendi a sonhar? E no epicentro dessa dialética sonhadora, torna-se propício, para que com a apropriação de uma expressão de Santos Dumont, despeça-me intrigado: “Quem sonha o absurdo realiza o impossível”.

 

por Deribaldo Santos

 

 

 

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