Divagando Devagar

Divagações ocasionais de uma mente reflexiva.

Crônica de uma noite citadina 16 abril, 2008

Filed under: Úbere — INEFFABILE @ 9:01 pm

Sozinho, depois de viver uma relação densa e tensa, com pesos e medidas gastos nas tentativas de acerto, onde, entre a saudade e o alívio, quem ganha é a paz e a solidão, saio de casa em uma noite quente e chuvosa típica da quadra invernosa do litoral cearense. A noite de sábado, apesar das poças de água e alagamentos em alguns pontos da cidade, está alegre e sorridente à espera dos freqüentadores que, aos poucos, vão se acomodando por entre bares, boates, cinemas, bordéis e assemelhados. Os homens solteiros ou solitários estão em visível minoria, enquanto as mulheres, sobretudo, as mais jovens, descem dos carros aos pares, trios, quartetos, quintetos…

 

“Oi”, diz um velho amigo de copo e conversa furada que há muito não via. Abraçamo-nos calorosamente e, depois de compartilharmos alguns depoimentos fugazes, continuo minha peregrinação. Amores antigos são identificados no meio de muitos rostos desconhecidos, lembranças boas e outras nem tanto permeiam alvitres, planos abandonados e sonhos desencantados. Fico meio sem graça em ouvir expressões do tipo “como você está magro”, “você sumiu”, ou, ainda, “cadê a fulana?”.

 

Encontro conversa boa, bebida gelada e música excitantemente dançante. Parece que este é o destino: diversão e lera para tapar a solidão. Algumas companhias de outras aventuras noctívagas surgem e relembram fatos de outrora com saudosismo e preciosismo: “lembra quando estávamos na casa da Nina e choveu a noite toda, deixando-nos alagados dentro de casa, mas ninguém saiu, pois a ‘birita’ e a música estavam ‘massa’?. Tempo que nunca mais volta, hoje está diferente”. Não gosto muito da conversa que considera o presente sempre pior que o passado: as pessoas mudam e mudam as coisas também.

 

A noite citadina segue seu curso como se fosse um rio com um destino claro: o amanhecer. Os novos rostos – belos, pueris e sinceros – soltam gargalhadas, gesticulam em seus passes de dança e lançam olhares despretensiosos, parecendo querer apenas umas e outras carícias. Sinto-me como se estivesse no metrô paulistano, uma unanimidade anônima. Contradições postas de lado, levanto e danço, confirmo o sentimento de satisfação, alegria espiritual e corporal, percebo-me leve e saudável, a música tira-me do local fixo que estou e eleva-me a espaços possíveis de se chegar apenas pela transcendência. Pessoas se tocam, roupas suam, pares de olhos abandonam a impessoalidade e optam por apreciações cada vez mais detalhadas, exposições e ofertas aguardam o momento simplesmente complexo do aceite. 

 

A noite permanece quente e a umidade da chuva, que não oferece trégua, indica ser este o motivo do espaço não esvaziar. As horas passam e mais pessoas chegam, o cheiro de nicotina interpõe meu olfato, a quantidade de bebida ingerida modifica meu reflexo, sinto mais forte e tombo nos instrumentos de percussão. Entrego-me definitivamente a movimentos sem compromissos coreográficos ou gestos planejados, solto o corpo como se fosse um mamulengo desconexo, sem freio ou fios de condução.

 

A madrugada impõe presença, a chuva descansa, o som cessa e os corpos bêbados caminham pela rua molhada em direções diversas. Sento num canto e aprecio o movimento frenético de garçons entusiasmados com a proximidade da folga arrumando mesas e cadeiras. O sono dá mostras de sua existência, preciso lavar o rosto, pois terei que guiar ainda uns vinte quilômetros até chagar à minha cama. Nuvens ainda carregadas querem embranquecer: é a alvorada pomposa, mas suave, que acentua o fim de mais uma noite citadina.   

 

por Deribaldo Santos

 

 

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