Divagando Devagar

Divagações ocasionais de uma mente reflexiva.

questões polêmicas no cristianismo 23 abril, 2008

Filed under: Rotineiras — INEFFABILE @ 8:12 pm

Eu não gosto da palavra ‘dogma’. Tudo o que pressupõe inflexibilidade e inquestionabilidade, me deixa extremamente desconfiada. Não me considero cética, mas não aceito a “cegueira mental” que envolve certas religiões cristãs.

Por exemplo, você já parou para pensar em como Jesus Cristo morreu numa sexta-feira e ressuscitou três dias depois num domingo?! Não era para ser na segunda-feira? E como é possível a Santa Trintade? Não compreendo a lógica, por tanto não acredito.

No que tange ao matrimônio, alguns dogmas cristãos são relativos. No Catolicismo divórcio é proibido, mas a separação é aceita. Os católicos vêem o casamento como um sacramento, sendo assim por tanto, indissolúvel. Baseadas nas mesmas escrituras religiosas adotadas no catolicismo (São Marcos 10:9; São Paulo aos Conríntios 7:10-11; São Mateus 5:31-2), outras religiões cristãs, no entanto, aceitam o divórcio como resultado do adultério, violência ou término da relação amorosa. Para alguns cristãos, é inaceitável casar-se mais de uma vez, enquanto outros sustentam que é desumano proibir uma nova união conjugal. Neste âmbito, o preceito religioso corre o risco de entrar em choque com um direito humano básico: o de casar e constituir família (art. 16º da Declaração Universal dos Direitos humanos).

Eu me casei duas vezes com o mesmo homem. Uma vez na Inglaterra e uma vez no Brasil. Nos dois lugares recebemos bençãos religiosas e juramos “amar e honrar um ao outro na dor e na alegria, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, até que a morte nos separe”. Todo mundo que se casa por amor faz este juramento de coração, apostando completamente tudo o que É numa jornada conjugal. Mas, como não sabemos o que o destino nos reserva, é sempre possível que os planos pessoais mudem. Eu acredito que com o matrimônio não seja diferente. Por isso eu estou com o Vinicius e não abro: “que nosso amor seja infinito enquanto dure” – mas torço para que dure para sempre!

Outro tema sujeito a controvérsia entre os cristãos é o aborto. Embora todas as doutrinas cristãs condenem duramente a pratica do aborto, sempre será possível encontrar um cristão que, baseado(a) em fatos científicos, endosará o término da gestação como método de controle de natalidade. O aborto é aceitável no cristianismo apenas se a vida da mulher grávida estiver em risco por causa da gravidez.

O aborto se opõe às minhas convicções espirituais e por isso sou contra. Embora mantenha a minha mente aberta para novas idéias, conceitos e convicções, até o momento não encontrei nenhum argumento que mude a minha crença. Gosto muito de ler sobre o tema, até porque vivo em um país onde a terminação da gravidez é legal.

A questão do aborto está, contudo, longe de ser esgotada, pois envolve situações muito polêmicas que variam de uma gravidez resultante de um estupro à mulher portadora do vírus HIV que teme passar o vírus ao feto ou ao bebê durante o parto.

Eu tive um professor na escola que uma vez revelou durante uma de suas aulas, que era fruto de um estupro. Não lembro como o assunto veio à tona, mas ainda recordo o choque que compartilhei com meus colegas ao ouvir aquela revelação tão inusitada. Ele nunca conheceu o pai biológico, que ele mesmo classificou como animal. Sua mãe, uma mulher cristã, não só o gestou e pariu, como também lhe deu amor, uma família e a oportunidade dele tornar-se o homem de sucesso que se tornou. Este professor, hoje um senhor, foi certamente um dos professores mais queridos do meu colégio. Acredito que ele seja uma hitória rara de terror com um final feliz.

Quanto à mulher soropositiva grávida, sabe-se como fato que a contaminação do feto ou do bebê durante o parto é uma possibilidade. Neste caso, o aborto seria realizado baseado no medo de contaminação ou em probabilidades matemáticas apenas.

Em uma aula de religião que cobri noutro dia, eu debatia com os alunos o caso do aborto em relação especificamente à mulher soropositiva grávida. Minha função na sala de aula naquela ocasião, era de apenas estimular a discussão sobre o tema e não de externar a minha opinião pessoal. Em um dado momento, uma aluna levantou a mão e pediu permissão para fazer uma pergunta ao resto da classe. Ela perguntou: “mesmo que o bebê nasça com HIV, não é melhor que ele(a) viva uma vida breve, porém feliz, do que não ter sequer a chance de nascer e de conhecer o amor?”. No embalo desta aluna, outra perguntou: “mas o que de amor pode conhecer uma criança aidética na África, que nasce, vive, sofre e morre sem nenhuma assistência?”.

Acredito que os dogmas sejam uma estratégia para evitar discussões que eventualmente tragam a verdade à tona.

 

3 Responses to “questões polêmicas no cristianismo”

  1. […] aos textos que publico, todos os dias há dois que foram clicados pelo menos uma vez cada: ‘Questões Polêmicas No Cristianismo‘ e ‘ Se Queres A Paz, Prepara-te Para A Paz‘. Eu não sei o porque e nem acho que […]

  2. Márcio Ramos Says:

    Olá,
    Não sei se este blog ainda está ativo, mas encontrei o link deste texto pelo google, quando estava procurando pelo tema “questões polêmicas sobre cristianismo”.
    Assim como você, não vou muito bem em certos pontos quando me dizem para aceitar verdades impostas, sem questionamento e não me deixando o direito de ter dúvidas. Por isso eu tenho um hábito que considero extremamente saudável, que é correr atrás, pesquisando e tirando minhas próprias conclusões sobre os temas que tenho dúvida.
    Não sei as dúvidas deixadas por você neste texto já foram sanadas. Porém eu tenho algumas respostas…
    99% das respostas dos exemplos citados acima, giram em torno da cultura judaica. O cristianismo surgiu no seio do judaismo, então para entender uma boa parte da bíblia devemos ter em mente a cultura da época.
    1 – Sobre a ressurreição de Cristo três dias depois, os judeus não contavam os dias como nós contamos, o primeiro dia foi a sexta-feira, da crucificação. O segundo foi o sábado e o terceiro o domingo. Mais uma curiosidade: as horas também eram contadas de forma diferente. A primeira hora do dia, era a hora em que o Sol nascia, ou seja, 6:00 AM para nós. Dessa forma, também não tinha hora 0, como para nós é a meia-noite.
    2 – Sobre a trindade, Deus é espírito, assim como verbo. Ele simplesmente é, sempre existiu e sempre vai existir. Aconselho a ler o Evangelho de João e atentar para todas as falas de Jesus, principalmente quando perguntavam quem era Ele. Os cristãos não veem Deus como um ser material, que coexista tanto na forma de dois homens, o Pai e o Filho, e de uma “pomba” o Espírito Santo (atentar para o simbolismo, pois quando o Espírito Santo desceu até Jesus em seu batismo nas águas, era em “forma de” e não exatamente uma pomba).
    3 – A questão do matrimônio, como o cristianismo começou com a cultura judaica e como essa cultura tem a Lei de Moisés como Lei absoluta, muito dessa cultura foi de uma certa forma erroneamente mantida nos preceitos cristãos. (Vale lembrar que os cristãos não estão mais sobre a Lei de Moisés (que representa a antiga aliança), mas nos tempos que Jesus era vivo, a aliança antiga ainda valia. Foi estabelecida a nova aliança a partir da morte de Cristo.)
    A cultura judaica repudiava o segundo casamento, logo, os cristãos não eram aconselhados a serem alvos de escândalos. A mulher não trabalhava, quando seu marido a deixava ou quando morria, ela estaria condenada a morrer de fome, caso não tivesse filho homem e os pais vivos e não conseguisse se virar, comendo restos das colheitas (o que deixavam cair no chão por acidente e não pegavam) ou não conseguisse esmolas. A viúva nem tinha o direito à herança do marido morto, para se ter uma noção. Logo abandonar a mulher era algo desumano, pois condenaria a própria a uma situação que hoje é inimaginável. O livro de Rute, aborda o caso de uma viúva que teve seus dois únicos filhos mortos e a vida de Rute, uma das noras que resolveu ficar com a sogra, ao invés de voltar para a casa dos pais (pois até as noras tinham o direito de voltar para a casa de seus pais, abandonando a sogra sozinha).

    Espero que leia esta resposta algum dia. Qualquer coisa, estou disposto a uma conversa sobre suas dúvidas a cerca do Cristianismo, pois suas dúvidas podem me motivar a estudar mais sobre o tema, já que a Bíblia é um livro que consegue ser simples e da mesma forma tão complexo.

    Abraços.

    • Márcio Ramos Says:

      Ah, gostaria de abordar aqui mais dois assuntos:

      1 – Deus de nenhuma forma, desencoraja o raciocínio lógico e o questionamento à cerca dos temas revelados na Bíblia ou aqueles cujo possamos descobrir a resposta por pesquisa. Vejamos o que Lucas, em Atos 17:11, escreve sobre o povo que estava em Beréia, ouvindo o que Paulo e Silas diziam:

      “Ora, estes foram mais nobres do que os que estavam em Tessalônica, porque de bom grado receberam a palavra, examinando cada dia nas Escrituras se estas coisas eram assim.”

      Eu já fui vítima por ter questionado sobre um certo tema e não ter me convencido da resposta que ouvi. Infelizmente muitos líderes religiosos por não saberem argumentar ou pesquisar mais, nos dão qualquer resposta, esperando que aceitemos calados. E nos ameaçam dizendo que tal resposta é absoluta e se for contrariada, você estará violando algo sagrado. Mas para mim, isso é coisa de líder que prefere manipular do que auxiliar no crescimento espiritual e intelectual da pessoa e isso nem de longe é ser cristão. Dizem que dúvida é coisa do maligno, mistificam coisas que são próprias do ser humano, para que possam cegar aqueles que os seguem.

      Nunca se envergonhe de ter dúvidas e de procurar saná-las. Mas procure fontes confiáveis, as respostas certas para quaisquer questões bíblicas são aquelas que não confrontam nenhuma verdade cristã.

      2 – Uma outra observação que gostaria de fazer é sobre a própria Bíblia em si. Muitos dos simbolismos que vemos hoje impregnando o cristianismo, são frutos de interpretações equivocadas. O cristão considera a Bíblia divinamente inspirada por Deus. Foram cerca de 40 homens que escreveram livros em lugares e períodos diferentes. Foram homens que escreveram, isto é, levando ao texto suas formas de escrita, usando linguagens da época e da cultura que viviam. Porém a essência era o que estava nos planos de Deus. Por exemplo, se eu te pedisse para escrever sobre o tema que acima você mencionou: o aborto. Você escreveu utilizando informações que você tem, de uma forma (digo arranjo do texto, escolha de palavras, etc..) que caracteriza a sua escrita. Agora se eu te mostrasse um objeto que você nunca viu na vida, e você quisesse descrevê-lo para alguém, certamente você iria tentar fazer comparações das características do objeto, com objetos que você conhece, para assim fazer ser entendida.
      É assim que a bíblia foi escrita. Cada autor teve a sua característica e utilizou-se de dados e fatos que conhecia. O exemplo que mencionei, do Espírito Santo descendo sobre Jesus em forma de pomba, talvez seja apenas uma analogia de características conhecida pelo autor. E hoje, os católicos utilizam o símbolo do animal para representar o Espírito de Deus.

      Outro exemplo para reforçar o que eu estou dizendo: Quando Jesus se revelou a João, na ilha de Patmos, em Apocalipse 1:12-16, veja a descrição de João:

      “E virei-me para ver quem falava comigo. E, virando-me, vi sete castiçais de ouro;
      E no meio dos sete castiçais um semelhante ao Filho do homem, vestido até aos pés de uma roupa comprida, e cingido pelos peitos com um cinto de ouro.
      E a sua cabeça e cabelos eram brancos como lã branca, como a neve, e os seus olhos como chama de fogo;
      E os seus pés, semelhantes a latão reluzente, como se tivessem sido refinados numa fornalha, e a sua voz como a voz de muitas águas.
      E ele tinha na sua destra sete estrelas; e da sua boca saía uma aguda espada de dois fios; e o seu rosto era como o sol, quando na sua força resplandece.”

      Imaginar o vestuário, até vai. Agora imaginar literalmente a espada saindo da boca, é algo que devemos forçar a imaginação muito mais. Se alguém visse alguém da forma literal da descrição de João, certamente correria. O que quero dizer é que certamente o que ele viu foi tão esplêndido e diferente, que procurou buscar palavras e figuras que conhecia para descrever o que via…
      Pelo menos os católicos não utilizam um homem com a língua com espada como imagem de Jesus.


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