Divagando Devagar

Divagações ocasionais de uma mente reflexiva.

Álcool 4 maio, 2008

Filed under: Rotineiras — INEFFABILE @ 8:55 pm

 

Bebidas alcoólicas estão associadas à desinibição, diversão, relaxamento, desestresse e amenização do sofrimento. No entanto, elas são tóxicos que atuam sobre o sistema nervoso central, alterando o estado de consciência normal.

Em geral, as bebidas alcoólicas não atraem novos adeptos por causa do sabor, mas sim pelas várias convenções sociais que surgem no decorrer da vida. Eu nunca conheci, por exemplo, alguém que tenha se apaixonado imediatamente pelo gosto da cerveja na ocasião do primeiro gole. Acho que a paixão pela cerveja se estabelece com a frequência em que se prova, mas acima de tudo, com os ‘ritos sociais’ aos quais ela está atrelada.

Uma amiga espanhola conta que desde os 5 anos de idade, sua mãe a obrigava a tomar meia taça de vinho tinto todos os dias antes das refeições para estimular o apetite. Este é um costume na Espanha.

Segundo dados do Home Office – agência do governo Britânico, aqui no Reino Unido a maioria dos jovens começa a beber antes dos 13 anos de idade, encorajados pelos pais.  De fato, aqui as crianças aprendem a frequentar os pubs desde muito cedo. Aos domingos, é muito comum encontrar famílias inteiras reunidas nos pubs. Os adultos tomando cerveja ou cidra em copos enormes (pints), além de doses de destilados e vinhos. Não é raro ver uma criança provar uma bebida do copo do pai ou da mãe.

Embora eu e meu marido ainda não tenhamos filhos, nós já tivemos algumas discussões inflamadas sobre o tema ‘álcool na infância’. Enquanto eu não quero que nossos filhos bebam álcool antes dos 18 anos – como eu fui criada; ele considera absolutamente normal que crianças e adolescentes frequentem pubs acompanhados de seus responsáveis e consumam bebidas alcoólicas em ocasiões festivas – como ele foi criado.

Se por um lado, o álcool parece estar intrinsecamente arraigado à cultura Britânica, por outro, observa-se uma conscientização maior com relação à dirigir depois de consumir bebidas alcoólicas. Aqui se o sujeito beber mais de duas doses (em média) de bebida alcoólica e decidir dirigir em seguida, será taxado de idiota irresponsável. Especialmente entre os jovens entre 18 e 30 anos de idade, este costume é quase inexistente. Quando eu e Tom saimos para uma noitada ou festa, por exemplo, geralmente decidimos quem vai beber e quem vai dirigir na volta, ou simplesmente pegamos um táxi. Esse tipo de acordo aqui é muito comum entre amigos e companheiros.

A penalidade por dirigir sob efeito do álcool no Reino Unido é muito severa. Dependendo do tipo de infração, o motorista pode pagar uma multa de até 5000 libras, ir para a cadeia por 14 anos, ter a licença cassada para sempre e ter uma passagem criminal que impedirá de conseguir empregos.

No Brasil, embora haja uma campanha crescente contra o hábito de beber e dirigir, este tipo de infração é ainda bastante comum. Na minha família e entre meus amigos mesmo isso acontece com certa frequência; o que é uma pena, vistos os perigos que beber alcoolizado implica sobre si e sobre o próximo.

Não vou discorrer aqui sobre os malefícios que o excesso de álcool tráz ao corpo humano e à sociedade, já que eles parecem ser inumeráveis e óbvios. Mas chamo a atenção para uma historinha mulçumana que aprendi noutro dia e que abriu espaço para uma refelxão sobre o consumo de bebidas alcoólicas:

“Um homem teve que escolher entre um dos quatro pecados a seguir: matar uma criança, cometer adultério, beber uma garrafa de vinho e atear fogo à casa alheia. Ele escolheu beber uma garrafa de vinho achando que este seria o pecado menos grave. Sob efeito do álcool, ele então cometeu adultério, ateou fogo à casa alheia e matou uma criança.”

Quantas pessoas fazem sexo sem proteção quando sob efeito do álcool? Quantas mulheres são estupradas porque estão alcoolizadas ou porque o parceiro torna-se violento quando alcoolizado? Muitas pesquisas sobre o estupro indicam que o álcool deixa o limite entre sexo consentido e não consentido difícil de discernir.

Eu adoro uma cervejinha gelada, champagne, cidra de framboesa e pêra, vinhos tinto, rosé e branco, dentre outras bebidas que considero muito saborosas. Eu procuro apreciar todas elas com moderação, contudo é um desafio socializar no Reino Unido sem consumir nenhum álcool. As opções de bebidas não-alcoólicas nos pubs, bares e restaurantes são muito limitadas e restringem-se a coca-cola, sprite e meia dúzia de sucos enlatados.

Tendo em vista os dados sobre alcolismo no mundo, a Organização Mundial de Saúde criou um plano que visa diminuir o consumo de álcool em todo o planeta. Uma das formas mais eficazes encontradas até agora para combater o consumo excessivo de bebidas alcoólicas, é de promover o aumento das taxas embutidas no preço das mesmas. A idéia é quanto maior o teor alcoólico de uma bebida, mais caro será o seu preço. Esta medida já vem sendo implementada no Reino Unido e em outros países da União Européia. Geralmente os países que consomem mais álcool, têm os preços mais elevados.

A OMS quer que a campanha contra o álcool seja similar a campanha contra o cigarro, enfatizando os efeitos passivos de seu consumo excessivo (violência, acidente de carro, desestruturação de famílias, etc). Cada país terá porém, liberdade para designar e conduzir a própria campanha.

Um exemplo que deveria ser considerado por outras cidades no Brasil, é o de Diadema, em São Paulo, que em 2002 baniu a venda de bebidas alcoólicas depois das 23h.  Naquela época, Diadema tinha um dos maiores números de assassinatos do Brasil – 103 homicídios para cada 100.000 habitantes, 65% dos quais relacionados com o consumo de álcool. Nos três anos seguintes, o número de homicídios caiu 44%, salvando a vida de aproximadamente 319 pessoas (revista NewScientist, 19 de Abril de 2008). 

Fatos como este mostram claramente como o consumo de álcool pode afetar diferentes aspectos da sociedade, desde o indivíduo à comunidade como um todo.

 

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