Divagando Devagar

Divagações ocasionais de uma mente reflexiva.

Recordar é se divertir 18 maio, 2008

Filed under: Contos D'outra Vida — INEFFABILE @ 1:36 pm

Eu inciei há duas semanas uma odisséia musical pela música brasileira dos anos 80. O objetivo foi gravar um CD com as minhas músicas favoritas daquela época, que é tão cara para mim. Tão logo comecei a garimpar dentro da minha coleção pessoal de CDs e MP3s em busca dos meus hits favoritos, me deparei com verdadeiras jóias musicais que não escutava fazia muitos anos.

Me dei conta de que relembrar as coisas boas do passado é bom demais!

A cada música, eu lembrava de uma situação, de uma Aline bem novinha; primeiro menina, depois aborrecente… Sempre, sempre sonhadora. Lembrei dos finais de semana em que meus pais levavam a mim e aos meus irmãos à praia do Recreio dos Banfeirantes, da Barra da Tijuca e do Imbuhy, ou à casa do Tio Heleno, que tinha a melhor piscina do mundo!

Lembrei de muitos passeios com a minha família, jogos de handball, gincanas no colégio, campanhas do grêmio estudantil, passeatas pelas avenidas principais do Rio (pró passe livre, pró meia entrada estudantil, contra estadualização do meu colégio), brincadeiras no Observatório do Valongo e na minha rua… Ah, que época maravilhosa! Se alguém precisa agradecer pela infância e adolescência que teve, esse alguém sou eu.

Mas, eu comecei falando de música e terminei contando as lembranças que naturalmente voltaram à memória durante a minha odisséia musical. Volto então aos sons dos anos 80 – lembrando que foi uma recapitulação a partir das vivências de uma menina/ adolescente carioca, na cidade do Rio de Janeiro.

Primeiro, adorei percerber que as letras das músicas, principalmente das de rock, eram muito mais irreverentes e encharcadas de rebeldia que as de hoje em dia.  As maiores bandas vinham de São Paulo, Rio, Brasília e do sul, e eram bastante influenciadas pelas tendências punk e pós-punk inglesas. Havia um sentimento anárquico e muito liberal no ar, que eram sentidos em casa, na escola, nas ruas… Tinha tudo a ver com o momento que o Brasil vivia, com o final da ditadura militar se aproximando e possibilidades novas acenando no horizonte. Ainda lembro das palavras expressando choque da minha vizinha muito católica por causa da sua neta que estava totalmente mergulhada junto comigo na “new wave”, nos nossos anos rebeldes…!

As músicas dos anos 80 eram arrojadas e falavam de de sexo, drogas, homossexualismo, desigualdade social, ditadura, corrupção, violência, dentre outros assuntos que estampavam as capas dos jornais e das revistas. Claro que também havia letras que falavam de nada com coisa nenhuma, eram sem sentido algum, mas ainda assim se consagravam nas rádios do país (digo país, porque nas férias viajava muito com a minha família e muitas vezes ouvia as mesmas músicas nas rádios da Bahia, Alagoas, São Paulo, Minas Gerais e Espirito Santo).

Os nomes das bandas eram um detalhe importante à parte:  Kid Abelha e Os Abóboras Selvagens, João Penca & Seus Miquinhos Amestrados, Biquine Cavadão, Engenheiros do Hawaii, Nenhum de Nós, Uns e Outros, Egotrip, Dr. Silvana & Cia., Kid Vinil & Magazine, Ultraje à Rigor, Paralamas do Sucesso, Barão Vermelho, Titãs, Metrô, Sempre Livre, Blitz, Camisa de Venus, etc. Alguns nomes eram super interessantes, outros eram muito esquisitos, a maioria não fazia o menor sentido. Mas era isso mesmo, pois a idéia era usar a criatividade para criar um nome enigmático ou de impacto ou… sei lá!

Ao todo consegui compilar até agora 87 músicas, mas há muitas outras que poderia ter incluido na minha compilação. Escolhi apenas as minha favoritas, aquelas que me marcaram de alguma maneira. 

Uma vez que avancei bastante na minha pesquisa, transferi as músicas para o meu iPod e passei a conferir a coletânea diariamente no ônibus, no trem, na bicicleta, no trabalho, no supermercado, na praia, em casa, na academia… Na verdade, como o meu iPod é praticamente parte integrante do meu corpo, tenho ouvido a lista de músicas – que entitulei de “30 & Poucos…” – várias vezes por dia nas últimas duas semanas.

No domingo passado, participei de um evento de ciclismo, onde percorri 25 milhas (40 km) dentro de uma área rural no sul da Inglaterra, no condado de Dorset. Com meus fones de ouvido bem plugados, lá estava eu vivendo um paradoxo incrível. Cortando uma floresta de paisagem bucólica, linda e pitoresca ao som de Kátia Flávia e Faroeste Caboclo. Fiz a prova em 2,5h – daí dá para imaginar a quantidade de músicas ‘nada a ver com o lugar’ que eu ouvi.

Mas embora possa parecer que estou tomando uma overdose de nostalgia, tenho notado pela primeira vez algumas coisas novas, que não havia percebido antes.

Por exemplo, há uma coisa com as “joaninhas”. Era assim que os fuscas da Polícia Militar do Rio de Janeiro eram carinhosamente chamados: joaninhas. Em “Serão Extra” de Dr. Silvana & Cia., eles contam que “de repente surge em cena quem? Uma joaninha, tocando a sirene, aquela bem fininha…” E a Kátia Flávia, a Godiva do Irajá de Fausto Fawcet, “matou o figurão, foi pra Copacabana, roubou uma joaninha”. Felizmente, as joaninhas foram substituidas há muito tempo por carros mais velozes (não necessariamente melhores), pois já imaginou uma joaninha a toda velocidade combatendo o crime carioca?

O bom e velho bairrismo carioca é também óbvio nas letras da Marina Lima, do Barão Vermelho, do Cazuza e da maioria das bandas do Rio. Em “Pop Star” do João Penca & Seus Miquinhos Amestrados, o surfista ‘new wave demais’ reclama: “- a sua mãe nao percebe o feeling da minha guitarra no dez e ela vendo a novela no quatro…”. O canal quatro é o canal da Rede Globo apenas no Rio, no sinal de propagação normal. O número do canal muda nos outros estados. Me pergunto se o resto do país entendeu o que eles queriam dizer.

Se por um lado a maior parte das bandas e dos cantores cariocas falava das coisas do Rio de Janeiro e do estilo carioca-da-gema de ser, as bandas de rock dos outros estados faziam uma abordagem mais nacional, onde por vezes Brasilia era o palco dos grandes conflitos sociais do país. Vide Legião Urbana, Capital Inicial e Engenheiros do Hawaii.

Enfim, a minha odisséia musical dos anos 80 está longe de acabar, pois vez ou outra eu lembro de uma música que ainda não tenho, corro para o LimeWire e com sorte, encontro alguém online disposto a compartilhar o arquivo MP3 desejado. Sem dúvidas, este está sendo um dos projetos pessoais mais prazerosos e bacanas dos últimos tempos.

 

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