Divagando Devagar

Divagações ocasionais de uma mente reflexiva.

A MPB se marca e se renova com seus espelhos 23 julho, 2008

Filed under: Úbere — INEFFABILE @ 2:52 pm

 

Um amigo português, admirador da música brasileira, certa vez perguntou-me em tom quase afirmativo por que a nossa música não está se renovando. Sem pestanejar, neguei a quase afirmativa. Mas, como meu interlocutor conhecia com alguma profundidade a MPB, minha negação precisava ser mais acesa e rigorosa.

Confesso que há mais de um ano guardo essa inquietude comigo. Por algumas vezes pensei em escrever ao amigo apresentando uma justificativa mais sistemática sobre sua indagação, outras vezes iniciei algo; porém padeci da falta de inspiração e ou de disposição para compor a resposta.

O ócio me trouxe a reflexão: de férias, resolvi viajar para o Rio de Janeiro, cidade que já foi morada minha por quase duas décadas e que há seis anos não visitava, guarda parentes e amigos ‘caros’. Confesso, não entendo mais a dinâmica do Rio com profundidade para uma análise, mas, atrevo-me a falar do show do sambista Diogo Nogueira, que tive a oportunidade de assistir por lá, amostra e prova da renovação da MPB.

A nossa música tem como marca a capacidade de absorver o novo para si depois que ele não é mais novidade, ou seja, para se alimentar do que surge, ela precisa antes destruir algumas características revolucionárias do que está emergindo os tornando aceitáveis aos ouvidos acostumados com o padrão estabelecido: renova-se ao mesmo tempo em que se conserva.

Tal fenômeno correu com a Tropicália e com o Manguebeat. A MPB consegue converter em imagem e semelhança até a sua parte de ritmos considerados “bregas” como o sertanejo, o pagode, o forró, o funk carioca e outros. A música eletrônica, por exemplo, enfrentou e enfrenta dificuldades de ser aceita pela estética da MPB, mas artistas como Zeca Baleiro e Lenine a utilizam vastamente. Sobre essa questão, podemos ainda expor os exemplos do grupo O Rappa e do cantor Marcelo D2, que já são figuras carimbadas da nossa marca musical abusando do sincretismo eletrônico com o tradicional.

Voltemos agora para Diogo e seus contemporâneos que surgem como as novas promessas de vigor da música brasileira. Depois de Maria Rita Mariano e seu irmão Marcelo Mariano, filhos de Elis Regina e de César Camargo Mariano, muitos são os nomes com sobrenomes famosos que alinham suas vozes pelos espaços da mídia tupiniquim. Não pretendo lembrar de todos e todas, pois são muitos. Os que mais me chamam a atenção são: os irmãos Wilson Simoninha e Max de Castro, filhos de Wilson Simonal; Jarzinho de Oliveira e sua irmã Luciana Mello, filhos de Jair Rodrigues; Leo Maia, filho de criação de Tim Maia; Luiza Possi, filha de Zizi Possi; os filhos e filhas de Gonzaguinha já se iniciaram na carreira artística; uma das filhas de Paulinho da Viola prepara sua estréia dentre muitos outros e outras.

Extensíssima também é a lista dos talentos que não carregam o peso de um sobrenome célebre nas costas, que serve para provar como nossa MPB se (re)faz: Céu, Mariana Aydar, Fabiana Cozza, Kléber Albuquerque, Isabela Otaviani, Seu Jorge, Tereza Cristina, Roberta Sá, entre inúmeros cuja lembrança e papel não comportam agora. Ao ler essa análise, meu camarada além mar deverá se perguntar se não vou citar os nomes dos não-iluminados pela mídia. Não! Esses, em nosso continental país deixam rastros que ora não posso rastrear. Imagina como deve ter coisa boa sendo produzida, por exemplo, em Belém, em Cuiabá, em Aracaju etc. Mesmo assim, caso eu insistisse e reproduzisse aqui os que tenho acesso, preencheria várias linhas e esse não é o objetivo.

Sobre Diogo Nogueira, preciso afirmar que como Maria Rita, não precisa do sobrenome para se firmar como ‘marca’ da MPB. Seu trabalho é consistente. Figura muito simpática como identidade, além de compor e cantar muito bem. Os fatos dizem de sua condição: ganhou por duas vezes consecutivas o concurso de samba enredo do carnaval de 2006-7 da Portela, prêmio que seu pai nunca conquistou.

Como sambista, afirma querer seguir os passos do pai João Nogueira. E demonstra isso no ponto alto de seu show: a interpretação da canção Espelho, composta por seu pai em homenagem a seu genitor e avô paterno de Diogo. Quando num instante abre-se um telão no final do palco, onde João Nogueira acompanhado por um violão canta as duas primeiras estrofes da música; Diogo, sentado em um banco, olha para o vídeo como se observasse a própria imagem em um espelho. Em seguida, assume a interpretação e canta: Mas eu sei que lá no céu/ o velho tem vaidade/ E orgulho de seu filho ser igual seu pai/ Pois me beijaram a boca/ E me tornei poeta/ Mas tão habituado com o adverso/ Eu temo se um dia me machuca o verso/ E meu medo maior/ É o espelho se quebrar.

Para mim, homem que avança pelos 40 anos de existência sem ter visto o próprio pai e que tem um filho adolescente que não mora consigo e ‘degusta’ uma relação com altos e baixos, assistir aquele espetáculo sem sentir grande emoção foi impossível. A saída foi pressionar a ponta do dedo indicador contra o nariz procurando impedir que as lágrimas manchassem o ‘meu’ espelho. Racionalizei, recompus a serenidade e resolvi escrever ao meu amigo português.
                          

Por Deribaldo Santos
Junho de 2008

 

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