Divagando Devagar

Divagações ocasionais de uma mente reflexiva.

Crônica da boa noite: um poema antes de dormir 6 setembro, 2008

Filed under: Úbere — INEFFABILE @ 8:29 am

 

Não guardo livros no quarto de dormir. Dois motivos principais norteiam essa minha implicância: primeiro o bolor que o papel conserva me transmite incômodos à respiração, que como em todo alérgico, entope o nariz, causa espirros, dificulta o sono; o segundo motivo é menos biológico e bem mais filosófico, ao dormir na companhia de teoria, teses, epistemes, métodos e filosofias, a mente não descansa, o músculo cerebral não relaxa, o corpo não se acomoda, não adormeço. Entretanto, felizmente há uma cômoda e elegante exceção, apenas consigo dormir tranquilamente quando leio antes de deitar, pelo menos um poema. Essas letras, contrariando aquelas, acompanham minha noite com sonhos, rimas, reflexões, amores e boniteza.

Os filósofos e suas questões, não que me desagradem, ao contrário, os admiro com respeito, rigor e transpiração, mas lê-los ao dormir atiça minha parca concentração, dificultando a entrada no estado de sono, aquele que você sente se distanciando de si e ao mesmo tempo entrando no próprio corpo. Já os poetas e suas criaturas deixam-me em elegia e contemplação, de tal modo que o sono passa a não importar mais, porém ao mesmo tempo em que a alegria invade o espírito e mesmo que a poesia proponha uma reflexão, sua forma por se confundir com seu conteúdo basta-me para proporcionar a tranqüilidade da quietude necessária ao sono.

Ler um poema é uma questão de extrema necessidade antes de deitar para dormir. Palavras sim, sei, não mais que apenas palavras, mas em forma de poesia; elas, somente elas, desnudam musas, filmam lugares jamais habitados, beijam bocas distantes, fazem os cílios tocarem bicos de seios como se fossem mamadeiras, enverdessem a seca, cavalgam entre anjos negros com azas de anil, carregam para si o agigantamento dos pequenos, enriquecem os pobres, desprezam os poderosos… “Estou quase a sonhar que durmo, preciso acordar para ver se te esqueço”.

Às vezes ao acordar durante a noite para urinar, beber água, ou apreciar o sono de meus filhos, ando pelo quarto cuidadosamente, mas acabo tropeçando nas flores que me traz Florbela Espanca, caio inevitavelmente nos braços brancos e içados à frente de Carlos Drummond de Andrade, viro para o outro lado e lá está Augusto, que tem anjos até no nome; levanto-me com o apoio da pessoa de Fernando a declarar seu grande amor a quem está de seu lado esquerdo: Walt Whitman, ao lado direito do português, Borges diz a Neruda que não o ama com a mesma precisão, mas repete que viver não é preciso; mais à frente, próximo à porta do banheiro, Arthur Rimbaud dança como se fosse um saltimbanco, procurando agradar Leminsk e provocar Rilke, Cecília Meireles dá motivos de sobra para acabar com a pendenga e me obriga a virar para o outro lado, onde encontro Victor Hugo sentado no colo de Adélia Prado, ela fala das árvores do mundo, mas é o ouvinte desse diálogo que me fixa a visão: Vinicius de Moraes que ao perceber meu olhar, canta às mulheres procurando acalmá-las pelo sumiço eterno de Zé da Luz, anunciado por Chico Pedroza; Machado de Assis que me parece ser afeiçoado a uma boa prosa, para meu espanto, aparece e solicita que eu diga a Djavan que antes de seu coração ser uma ilha a centenas de milhas daqui, os olhos de Capitu já adquiriam importância maior que as estrelas por estarem ao alcance das mãos; Brecht alerta que o quarto já não é tão escuro, enquanto Torquato afirma, “pra mim chega”; contudo, quando o bem-te-vi que mora no coqueiro, avisa que o dia chegou, é Patativa quem me acalma com sua voz de passarinho; insisto em permanecer na festa, mas o toque mecânico de algum aparelho eletrônico determina que não é a filosofia e nem a poesia e sim o dia que chegou e, portanto, preciso levantar sem poetas ou filósofos para encarar o cotidiano, não o de Chico Buarque: o meu.

 

Por Deribaldo Santos
Quixadá, Novembro de 2007, durante a greve dos professores e estudantes da UECE.

 

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