Divagando Devagar

Divagações ocasionais de uma mente reflexiva.

Offside 9 setembro, 2008

Filed under: Rotineiras — INEFFABILE @ 6:04 pm

 

Offside (“Fora do Jogo” no Brasil) é um filme iraniano do diretor Jafar Panahi, que conta a história de um grupo de mulheres fãs de futebol que tentam, sem sucesso, assistir ao jogo Irã x Bahrain, pela classificação para a Copa do Mundo de 2006. Vestidas de homem, elas tentam driblar a segurança do estádio Azadi, em Teerã, mas são flagradas e presas em uma área do estádio onde elas não podem ver ou saber o que está se passando durante a partida.

Como o Irã é uma república mulçumana, por lei, as mulheres não podem assistir ou participar de esportes masculinos. Homens xingam muito durante os eventos esportivos e isso compromete a pureza das mulheres.

Eu assisti a este filme noutro dia por acaso. Cheguei cedo em casa e resolvi dar uma olhada no que estava passando na TV. Ao ver o título “Offside” no menu de filmes e ler a sinopse, fiquei curiosa para conhecer um pouco sobre a relação da mulher iraniana com o futebol.

O começo do filme é tenso. Duas mulheres bem jovens viajam escondidas em um ônibus de torcedores, todos homens. Ao chegarem ao estádio elas se separam. Uma delas se mistura na multidão e consegue entrar se passando por um homem cego, acompanhada de outros dois homens. A outra, após comprar um ingresso de um cambista por um preço muito mais elevado que o normal – ele sabe que trata-se de uma mulher e por isso faz ameaças e a explora – tenta passar pela segurança do estádio, mas é flagrada e presa. Chorando e ao mesmo tempo sendo humilhada pelos policiais, ela é presa e levada para uma área do estádio onde outras mulheres, também vestidas de homem, estão detidas. Todas elas foram flagradas da mesma maneira; todas elas têm em comum a paixão pelo futebol. Elas brigam, implicam, imploram, choram, gritam para poder assitir ao jogo mesmo de longe; mas os soldados se recusam a ajudá-las. Às vezes eles até parecem se penalizar com a situação das moças, mas na maior parte do tempo eles as humilham.

Durante o filme eu oscilei entre raiva e compaixão. Me dava ódio ver que aquelas mulheres, loucas por futebol, não tinham direito de assitir ao jogo de sua seleção nacional no estádio. Elas poderiam assistir em casa, no ambiente familiar, mas não em meio à multidão.

Eu me senti profundamente tocada com aquele drama porque facilmente consegui me por em seus lugares, com a diferença de que eu não possuo nenhuma compreensão com relação ao mundo mulçumano. Mas eu sou apaixonada por futebol e essa nossa paixão em comum associada ao fato de ser mulher, criou entre eu e aquelas mulheres um vínculo sincero.

O mundo mulçumano é totalmente alienígena para mim. Por mais que eu tente aceitar que certas culturas simplesmente sejam diferentes, eu admito que não suporto desigualdades sociais decorrentes de intolerâcia à gênero, à raça e à religião. Os mulçumanos dizem que “Islam é Amor”, mas desde quando amor tem limites?

Na minha concepção pessoal o amor não deve ter limites. E amar futebol é como qualquer outro tipo de amor. É poder vibrar pelo simples fato de estar amando.

Mas com tantos pecados na cabeça, com tantas proibições legais, com tantos limites cerceando o horizonte, deve ser muito difícil entrever as infinitas possibilidades que a capacidade de amar oferece.

Imagine então conceber uma mulher – figura pura e alicerce da família mulçumana – tendo uma paixão futebolística; a chorar, a descabelar-se, a enfurecer-se por causa de 22 homens correndo atrás de uma bola estúpida e três árbitros que às vezes parecem não ver o que os torcedores, os jogadores e os técnicos vêem! Eu imagino tudo isso facilmente porque faz parte do meu mundo desde que eu era bem pequena. Meu pai me levou ao Maracanã para ver o meu time em campo pela primeira vez quando eu tinha apenas seis meses de idade. No entanto, essa percepção do futebol no universo feminino do Islam parece ser inconcebível. A não ser que seja por baixo do xador ou da burca, com a mulher contida em um ambiente familiar.

Eu queria que aquelas mulheres do filme saíssem da ficção e tivessem a oportunidade de ir ao Maraca ou ao Morumbi num dia de jogo grande ou pudessem andar em qualquer rua brasileira na época da Copa do Mundo. Eu queria que elas pudessem expressar suas emoções através de onze palavrões pronunciados em sequência, só porque o árbitro cometeu um erro daqueles!

Puta que o pariu! Que caralho! Seu corno, viado! Vai se fuder, seu juiz de merda filho da puta! Seu burro, seu porra, seu bosta! A piranha da tua mãe tá dando o cú na zona!

Eu amo essa finesse característica de uma partida de futebol, seja em uma pelada de rua ou em uma decisão mundial.
Eu sempre digo que ir a um estádio de futebol muitas vezes liberta mais do que dez sessões de psicoterapia.

Quanto ao filme, ele é bom, mas me despertou para uma realidade contemporânea muito triste, onde nascer com dois cromossomos X nas células sexuais significa estar predestinada à inferioridade, à um mundo muito limitado, onde dentre outras coisas, não há muito futebol.

 

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s