Divagando Devagar

Divagações ocasionais de uma mente reflexiva.

Bióloga aqui e acolá 18 setembro, 2009

Filed under: Rotineiras — INEFFABILE @ 1:06 pm

5 semanas de trabalho de campo…

Não dá para não comparar a experiência profissional que tive no Brasil com a que vivencio na Europa.

Para começar, o clima daqui – Inglaterra – requer mais perserverança e disciplina.  O vento quase sempre sopra forte na direção mais incômoda possivel; sem contar com a chuva, que é um aspecto irritante, porém mais frequente que dias secos e ensolarados.

Como eu trabalho no litoral, minhas expedições científicas ocorrem nas praias de pedrinhas, falésias sedimentares e argila. Sim, argila! Que na maioria dos casos se encontra depositada sob pedras e areia, mas que às vezes forma plataformas expostas extensas na costa. As expedições seguem pela faixa litorânea e adentram as bocas dos rios para explorar os estuários. Estuário é quase sinônimo de lama mole e mal-cheirosa.

Às vezes a paisagem é bela e me fascina, mas na maioria das vezes, eu comparo com o litoral brasileiro, que conheço bem e prefiro.

Sinto falta da areia branca, dos costões rochosos do sudeste e do sul, das ilhas oceânicas e dos deltas do nordeste. Sinto saudade da facilidade para encontrar motivação para trabalhar no campo, da casualidade e do despojamento das relações com os colegas de trabalho, dos mergulhos em águas transparentes e cheias de vida colorida.

A equipe de trabalho daqui também posa como um desafio. Geralmente somos 6 pessoas totalmente diferentes (algumas indiferentes), obrigadas a trabalhar e a conviver juntas durante o período da pesquisa. É muitas vezes um saco! Eu sou a única estrangeira; os outros são ingleses das regiões norte, central, sul e oeste. A Inglaterra é pequena se comparada com o Brasil, mas as regionalidades daqui se assemelham às do meus país, no que tange às diferenças culturais de cada região brasileira.

As relações profissionais aqui são mais formais e somente se descontraem na fachada. Eu não espero fazer amizades nestas circunstâncias. Quando a expedição acabar no final desta semana, todos nós sentiremos um imenso alívio, por não precisarmos mais olhar um na cara do outro ao acordar ou fingir companheirismo e cordialidade. Fingimento é puro teatro e em uma expedição de 5 semanas, convivendo 24 horas diariamente, gasta-se muita energia para fazer teatro e seguir com o trabalho adiante, que é por si só fisicamente exaustivo.

O meu perfil profissional mudou bastante nos últimos anos e hoje sei que sou uma pesquisadora mais madura e completa do ponto de vista científico. As questões pessoais nas minhas relações de trabalho praticamente inexistem. Isso dá mais liberdade, ao mesmo tempo que às vezes dá uma sensação de vazio. Se pelo menos o lugar fosse aconchegante…

 

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