Divagando Devagar

Divagações ocasionais de uma mente reflexiva.

Por Trás Da Agressividade 3 março, 2010

Filed under: Rotineiras — INEFFABILE @ 11:28 am

Eu sigo trabalhando como supply teacher (professora substituta) e percebo que nos últimos tempos tenho apreciado mais o meu emprego.

No passado eu me estressava com as atitudes e comportamentos desrespeitosos dos estudantes. Agora eu me sinto mais relaxada e disposta a abrir a minha mente a fim de compreender melhor os alunos e o sistema de educação inglês de forma geral.

Vez ou outra ouço de um professor trechos da história de vida de alguns alunos. Às vezes me impressiona tomar conhecimento sobre o que está escondido atrás do cinismo, do sarcasmo e da rebeldia de alguns jovens. Não raro, eles são filhos de pais viciados em drogas, traficantes, alcoólatras e criminosos. O governo britânico neste caso interfere e retira as crianças de suas famílias, dando suas guardas a ‘pais profissionais’ (foster parents), que recebem uma pensão do estado para cuidarem destas crianças, provendo-lhes com um ‘ambiente familiar ideal’. Não sei se o sistema funciona, já que todos os alunos criados por foster parents com os quais entrei em contato até hoje normalmente apresentam um comportamento muito difícil. Creio que eles queiram atenção ou simplesmente acreditem que sejam um tipo de refugo social. Em outros casos, alguns alunos são refugiados de conflitos armados, como dois adolescentes afegãos que conheci noutro dia. Eles foram ‘resgatados’ por tropas britânicas na atual guerra no Afeganistão. Outros jovens são órfãos e são criados por seus irmãos, que são também muito jovens para carregarem tamanha responsabilidade.

Enfim, há uma infinidade de dramas particulares que a minha profissão desconhece. Normalmente, eu chego na sala de aula com um roteiro de lição; quando um aluno é desrespeitoso e malcriado, eu simplesmente aplico as normas disciplinares da escola, que geralmente resultam em advertência, suspensão e nos casos mais graves, exclusão.

Hoje em dia eu me esforço mais para ter paciência e mesmo quando o estudante é grosseiro e horrível comigo, eu não encaro a ofensa no âmbito pessoal. Eu creio que não haja nada que possa justificar qualquer tipo de agressão espontânea e, por isso mesmo, eu sempre procuro deixar claro que certos comportamentos são, em qualquer circunstância, inaceitáveis. Por outro lado, eu procuro, como educadora, oferecer mais chances para que os meus alunos possam reconhecer certos padrões comportamentais e, eventualmente, mudá-los para melhor.

Por trás da agressividade sempre há medo.
Rigidez, quando combinada à impaciência, gera uma barreira entre aluno e professor que é muito difícil de ser traspassada e, por consequência, impede o sucesso de qualquer relação positiva entre todas as partes. Eu percebo que, quanto mais eu grito e sou intolerante, mais agressividade eu recebo dos estudantes e meu papel de educadora se perde. No entanto, quando eu consigo ser mais paciente e menos irascível, as minhas aulas tornam-se uma experiência mais agradável para todos os envolvidos.

 

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