Divagando Devagar

Divagações ocasionais de uma mente reflexiva.

É o fim da Segunda Era Espacial… 19 julho, 2011

Filed under: Rotineiras — INEFFABILE @ 8:16 pm

Semana passada, encontrei uma revista National Geographic de 1981! Coincidentemente, a revista trazia uma matéria intitulada “Quando o ônibus espacial finalmente voar” (eu vinha justamente pensando em escrever sobre isso) . A matéria discute os planos e a importância das viagens destas naves espaciais, assim como os desafios físicos, mecânicos e econômicos de suas missões.

O que mais me chamou a atenção ao ler a matéria, foram algumas previsões feitas por cientistas sobre os avanços tecnológicos impulsionados pela chamada “Segunda Era Espacial“. Robert Freitag, um dos cientistas da NASA na época, disse estar convencido de que por volta de 1990, as pessoas viajariam nos ônibus espaciais rotineiramente, como em uma simples viagem de avião. O próprio autor da matéria parecia convencido de que até o final do século XX, a maioria das pessoas estaria fazendo chamadas telefônicas via satélite à custos baixíssimos, utilizando telefones portáteis de pulso.

A primeira missão espacial dos fantásticos ônibus espaciais aconteceu no dia 12 de Abril de 1981 com a decolagem da nave Columbia. Até então, as missões espaciais eram possíveis através de veículos de lançamento que eram em sua maioria descartáveis. Uma vez que estes veículos posicionavam satélites e artefatos militares na órbita da Terra, eles tornavam-se lixo espacial, um problema que começou com o lançamento da série de satélites Sputnik na década de 50 e que ainda não tem solução.

Os onibus espaciais são maravilhosos justamente porque eles podem ser usados inúmeras vezes num vai e vem espacial potencialmente sem fim. Além de possibilitar a reutilização de tecnologia astronáutica, a Segunda Era Espacial também abriu oportunidades para mulheres e pessoas de etnias diferentes de integrarem o seleto grupo de astronautas da NASA. Profissionais de áreas variadas puderam tripular missões científicas, militares, diplomáticas, entre outras. E embora as missões dos ônibus espaciais nunca tenham se tornado de fato ‘rotineiras’, elas certamente passaram a fazer parte da rotina dos noticiários, fosse por suas proezas, pelas críticas ao programa espacial da NASA e/ou pelos incidentes ocorridos.

Aos aficionados por astronomia e entusiastas do espaço foi dada a esperança de algum dia poderem integrar a tripulação de um dos ônibus espaciais através dos chamados ‘passes espaciais’, um predecessor do programa de turismo espacial mais tarde concretizado pela agência espacial Russa. Embora os passes espaciais nunca tenham saído da fase das reservas, famosos tais como Steven Spielberg e Mike Gray garantiram a esperança de um dia viajarem ao espaço sideral pagando quantias milionárias à NASA.

Um outro aspecto que me chamou a atenção na matéria da National Geographic, foi a preocupação dos cientistas envolvidos na construção dos ônibus espaciais com possíveis problemas nos foguetes de propulsão utilizados nos lançamentos e com as células isotérmicas (espécie de azulejos dissipadores de calor). Incrível constatar que, os dois desastres que resultaram na destruição total do Challenger em 1986 e do Columbia em 2003 foram resultantes justamente de falhas nestes dois sistemas, respectivamente.

O lançamento do Challenger em sua 10ª missão espacial, me marcou muito não só por eu ser uma menina de 10 anos de idade na época, altamente interessada em astronomia e assuntos espaciais em geral – meu negócio era ficção científica! Mas havia também uma grande publicidade sobre esta que seria a missão a levar ao espaço o primeiro tripulante civil a bordo de um ônibus espacial, a professora de história Christa McAuliffe, que foi selecionada através do programa Um Professor no Espaço entre 11000 candidatos de todos os EUA. 73 segundos após a decolagem do Challenger, um problema em um dos foguetes propulsores causou a explosão do mesmo, resultando na destruição total da aeronave e na morte de seus sete tripulantes. Eu assisti ao lançamento do Challenger ao vivo, na sala de casa. Eu tinha parado de fazer a lição da escola só para assistir estarrecida ao meu primeiro desastre espacial.

Em 2003, após alguns sustos e muitas missões adiadas devido a problemas técnicos com as aeronaves do programa espacial Estadunidense, foi a vez do Columbia ser incinerado no ar durante sua reentrada na atmosfera terrestre, em função de uma brecha na camada de células isotérmicas de uma das asas. Após uma longa e detalhada investigação, foi constatado que a brecha tinha poucos centímetros de comprimento e profundidade, e havia sido causada durante a decolagem, quando um pedaço de esponja se desprendeu de um dos módulos propulsores e atingiu a área superficial da asa. O dano passou despercebido durante toda a duração da missão e foi suficiente para deixar a asa do ônibus espacial vulnerável à temperaturas de até 3000ºC. Como as camadas abaixo das células isotérmicas são feitas de metal e outros materiais sensíveis à altas temperaturas, a pequena brecha foi responsável pela desintegração total de mais uma maravilha da astronáutica e de seus sete tripulantes. A tripulação da Columbia, por sinal, era bem diversificada e especializada, composta principalmente por cientistas. Durante os 16 dias de sua última missão orbitando o planeta Terra, o Columbia foi um laboratório espacial de ponta, onde 80 experimentos diferentes foram conduzidos nas áreas de ciências biológicas, médicas e espaciais. Os tripulantes trabalharam sem parar durante 24 horas, em turnos, todos os dias da missão.

Os Vaivém Espaciais, assim como são chamados os ônibus espaciais em Portugal, estão se aposentando. Após a aposentadoria do Discovery em Março e do Endeavour em Junho, será a vez do Atlantis pousar pela última vez no dia 21 de Julho, no Centro Espacial Kennedy.

Como a Estação Espacial Internacional está funcional, caberá aos Russos daqui por diante a responsabilidade de transportar tripulantes da Terra ao espaço através das aeronaves Soyus  da Roscosmos (Agência Espacial Federal Russa). Quem diria que após aquele ‘bafafá’ da Guerra Fria, Russos e Norte Americanos trabalhariam lado-a-lado em prol do desenvolvimento aeroespacial?

30 anos, 5 onibus espaciais e 135 missões (uma ainda a se completar) mais tarde, muitas inovações, sonhos e pesadelos fizeram parte direta e indiretamente de nossas vidas. Para mim, é difícil acreditar que a “Segunda Era Espacial” está chegando ao fim sem poucas dicas sobre como a “Terceira Era Espacial” será. Será que a nova geração de naves Soyus ou as aeronaves Parom, ambas Russas, serão o futuro da aeronáutica espacialneste século? Ou será que o governo dos EUA reconsiderará as suas contas com o objetivo de apoiar o programa Contelação, com novas aeronaves e tecnologias?

A minha imaginação, no entanto, me permitirá conceber naves espaciais e tecnologias que provavelmente não irão existir antes do final deste século, mas como os cientistas e entusiastas de 30 anos atrás, eu vou acreditar que elas virão em breve.

 

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