Divagando Devagar

Divagações ocasionais de uma mente reflexiva.

Jornada de quase um ano 4 dezembro, 2013

Filed under: Meu Querido Blog...,Tormentas — INEFFABILE @ 2:48 pm

Faz mais de um ano que não escrevo no meu blog e confesso que senti muita falta dos momentos em que criei espaço e tempo no meu dia-a-da para divagar devagar.
Transferir o que rola em minha mente para o blog, sempre me dá um sentimento de satisfação pessoal. Talvez porque a escrita ajude a consolidar minhas visões e sentimentos sobre uma série de temas e acontecimentos, me ajudando a concatenar fatos e me expressar de maneira mais clara, pelo menos para mim mesma.

Durante todo esse tempo que não escrevi, imaginei textos e mais textos que gostaria de ter escrito. Os escrevi, porém, em minha mente. Que grande pena que boa memória nunca tenha sido uma de minhas virtudes! Meus textos mentais se perderam em algum lugar da mesma matriz em que eles foram criados. Só posso dizer que, durante o último ano vivi muito, pensei muito, refleti muito. Foram muitos os acontecimentos que sucederam em minha vida; uns muito bons e outros ruins. Muitos foram marcantes, verdadeiros ‘divisores de águas’.

Em dezembro do ano passado perdi um amigo querido para um trágico acidente de carro. Sua perda foi um grande choque, não só para mim, mas para meu marido também. Aprendi que receber a notícia sobre a perda de um ente querido é algo que a gente nunca esquece. Minha reação imediata foi um choro convulsionado, do tipo que ainda não conhecia. Me fascina o fato de não saber tudo sobre mim mesma, especialmente sobre minhas reações. Os acontecimentos que se desenrolaram nos dias seguintes trouxeram ainda mais perdas e, de repente, o mundo tal como o conhecia, se acabou, fazendo a profecia sobre o fim do mundo em dezembro de 2012 bem real para mim.

Natal e ano novo.
Comecei o novo ano com pesar n’alma. Uma tristeza que só era amenizada durante os momentos em que estava com meu filho e meu marido. Essa tristeza às vezes era acompanhada por medo; medo de morrer, medo da morte; medo de perder alguém amado. Eu e meu marido chegamos a escrever nossos testamentos, onde a parte mais difícil e dolorosa foi a que diz respeito ao nosso filho, Ícaro, e quem seriam seus guardiões. Percebi que não existe no mundo ninguém mais capaz e adequado para cuidar dele do que meu marido e eu. Passei a desejar que a vida fosse generosa o suficiente para sempre deixar um de nós presente fisicamente na vida de nosso filhote.

Descofiando da vida e perdendo a fé.
Uma das afirmações que sempre gostei de usar no meu dia-a-dia é “Eu Confio Na Vida“. Por mais que repetisse para mim mesma esta afirmação várias vezes ao dia, o pensamento senguinte sempre era de dúvida; “e se acontecer isto ou aquilo?”. Tanto medo e desconfiança geraram uma sensação contínua de inseguranças e incertezas.

Ainda em janeiro, recebi a notícia sobre o falecimento da minha vó. Não falava com ela há mais de dois anos por conta de um grande desentendimento familiar. Mantive o meu afastamento de forma muito consciente, sem fingir que ela não existia, mas ao contrário, sabia que minha decisão a havia magoado muito. Por outro lado, me sentia em paz com minha escolha e pressentia que ela morreria sem que tivéssemos feito as pazes. Pressentido e feito. O fato é que senti mais pesar pela morte de meu amigo do que pela morte de minha avó, com quem convivi muito mais tempo e de quem tenho ainda boas lembranças, embora tenha também lembranças ruins relacionadas a ela.

Paranóia?
Meus medos e inseguranças passaram a ser tão frequentes que em muitos momentos beirei à paranóia. Como alento, chegou a Páscoa, e com ela a transição do inverno para a primavera. Eu e minha família aproveitamos as férias de duas semanas para viajar de carro pela Grã-Bretanha. Nos primeiros dias de viagem, não conseguia parar de pensar em acidentes de carro. Que pesadêlo vivi acordada. A cada freiada, meu coração disparava.

Culpa.
Me sentia culpada cada vez que não tinha capacidade de apreciar as coisas belas que estava vivenciando durante aquelas férias fantásticas. Quando finalmente chegamos à Escócia, foi que fui tomada por alegria novamente. A núvem negra que havia nublado a minha luz interior finalmente começou a se disperçar. Como me senti grata por poder apreciar tantas paisagens belas, rever amigos queridos no caminho e testemunhar o vigor da vida
selvagem nas florestas, no céu e no mar! Meu pesar deu lugar a graça novamente.

Terapia, mudança de paradigma e mudança de crença.
Voltamos de nossa viagem epopéica e meu foco passou a ser trazer mais positividade para a minha vida e, sobretudo, manter a positividade readquirida. Comecei sessões de psicoterapia, nas quais tive a oportunidade de discutir os acontecimentos dos últimos meses e como me sentia. Chorei muito de novo, mas a cada sessão me senti mais leve. É como se vomitasse pensamentos e sentimentos intoxicantes. Entendi que uma das maiores perdas que havia sofrido não havia sido a perda de meu amigo ou de minha vó, mas da minha fé em Deus. Na verdade, eu perdi a fé e ponto. Passei a duvidar da existência de vida após a morte e que tudo na vida acontece por uma razão.

Perdendo Deus e me achando.
Um dia me deparei com a notícia de que mais uma criança, desta vez parente de um amigo, havia morrido em decorrência de uma leucemia, que o debilitou por mais de um ano e finalmente tirou sua vida. Aquela notícia, assim como muitas outras que vieram ao meu conhecimento na mesma época, só aumentaram a minha certeza de que Deus não existe. Me questionei: se tudo tem uma razão para ser, então, por qual razão na face da terra aquela criancinha de dois anos havia padecido? Como pode Deus ser justo, quando expõe tantas pessoas aos maiores sofrimentos possíveis, imagináveis e inimagináveis? Se Deus é omnipotente, por que então não usa seu poder para o bem? Por que Deus tem que manchar a vida das pessoas com sofrimento e pesar?
Me questiono sobre tudo isso e muito mais. Quando perdi minha fé e crença em Deus, me senti livre o suficiente para crer mais em mim. Passei a crer mais na vida e no meu poder de criação do que no destino. Entendi também que coisas ruins acontecem às pessoas boas e este fato é assim simplesmente porque é, e não porque há uma razão para ser.
As fundações das crenças que alicerçavam toda a minha vida foram, em pouco tempo, derrubadas. Me senti como se tivesse perdido o chão sob meus pés, mas consegui construir um modo de encarar a vida diferente, confiando mais do que nunca na vida e no universo, não por alguma razão mística ou religiosa, mas porque há uma força vital tão incrivelmente poderosa na natureza, que, aconteça no mundo o que acontecer, este poder sempre fará com que a vida prevaleça sobre quaisquer intempéries. Me sinto mais conectada à Terra e ao momento presente do que jamais estive.
No meio de um turbilhão, me achei.

Mais mudanças e mais vida.
No dia 5 de maio descobri estar grávida do meu segundo filho. Agora já estou perto de parir e sei que darei á luz um menino chamado Tavin. A minha gravidez só me ajuda a manter minha positividade, embora tenha me tornado mil vezes mais sensível e sentimental. A jornada desta gravidez será tema de outro texto aqui no blog (espero que em breve).

Em poucos dias, a morte do meu amigo estará completando um ano. Ainda penso neste fato com dificuldade de crer nele. É difícil crer que ele se foi, que sua família se mudou para longe, que eles fazem parte da minha vida e de minha família de maneira tão diferente. Sinto muitas saudades de todos eles…

Refletir sobre todos os eventos transcorridos durante o ano que sucedeu a morte de meu amigo e relatá-los aqui no blog, me fez reviver um pouco a jornada percorrida até aqui, jornada esta em que houve muitas perdas, mas também achados incríveis!

 

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s