Divagando Devagar

Divagações ocasionais de uma mente reflexiva.

Como Produzir Um Bom Ser Humano 28 junho, 2015

Filed under: Reflexão da Semana — INEFFABILE @ 1:53 pm

Hoje estou refletindo sobre algo que todos, independente de gênero, orientação sexual, idade, nacionalidade, orientações política e religiosa deveriam refletir também: como produzir seres humanos saudáveis, fortes, bem educados e de bom caráter?

Não há receita que garanta com 100% de certeza que o resultado final da criação de um ser humano será uma boa pessoa. Não, não há.

Embora seja discutível a extenção do controle que a carga genética tem sobre a personalidade, o caráter e o estado mental de cada indivíduo, a relação entre genética e a individualidade consciente (e até inconsciente) de cada pessoa já foi estabelecida e é inegável. Há inúmeros estudos desenvolvidos nas últimas 6 décadas que apresentam evidências bastante contundentes sobre a existência desta relação.

Evolucionariamente, os seres humanos evoluíram a partir de predadores, passando ao longo dos milhares de anos, para uma fase de maior organização societal e de domínio sobre outras espécies: a fase dos humanos fazendeiros. O fato é que, o instinto e habilidades que possibilitaram assumir e desenvolver o papel da caça, por exemplo, são oriundos de características cujo cerne reside no âmbito molecular do organismo, refinado, aprimorado e moldado ao longo dos tempos através de um processo que controla a existência da vida como um todo no planeta: a seleção natural. Mas, me atrevo a dizer que a pessoa mais vegetariana, mais Vegana do mundo, teria capacidade de predar sobre outras espécies animais, digo, caçar mesmo, estivesse esta pessoa exposta a uma situação extrema. O que não faria um pai ou uma mãe para salvar a vida de um filho? Sejam quais forem as crenças e os princípios adotados por cada um de nós, nossos genes são o alicerce da vida nua e crua, tal qual ela seria na ausência de educação e requintes sociais. Podemos nos despir de tudo, menos de nosso genes.

O que isso tem a ver com minha reflexão inicial?

Ora, se genes são assim tão poderosos ao ponto de serem capazes de transfomar uma ovelha em uma fera feroz, os únicos fatores que podem então controlar e reprimir, até certo ponto, a natureza de cada organismo, são os fatores externos (OK, há também a epigenética…). Para humanos, alguns destes fatores seriam a educação, bons e maus exemplos, condições de vida, relações sociais e emocionais e assim por diante.

1kg de argila pode dar origem a uma linda obra de arte ou a algo bastante complexo ou a uma esfera ou a um cubo. Nunca porém deixará de ser argila.

Dentre alguns acontecimentos recentes de que tomei conhecimento, um deles é bastante polêmico: a proposta de redução da maioridade penal no Brasil, que tem grande chance de ser aprovada no plenário da Câmara dos Deputados, na próxima terça, 30 de junho.  Ora, é fato que há muitos adolescentes criminosos e psicopatas por aí. Em países onde há uma desigualdade social avaçaladora como é no Brasil, é relativamente comum observar um grande número de crimes cometidos por jovens. Outro fato é que estes jovens criminosos são, em sua grande maioria, desprovidos de educação, afeto, proteção, nutrição adequada e outros fatores que deveriam ser garantidos a toda criança e jovem brasileiro, desde o nascimento até a maioridade (pelo menos!). A Constituição Federal determina estes direitos. Mas por que a sociedade como um todo, parece estar tão empenhada em penalizar o jovem infrator que é, em primeira e última instâncias, resultado de uma sociedade injusta e ineficiente? Para mim, crueldade é algo genético; todo mundo já foi cruel na vida e se houver uma escala de crueldade que varie de 0 a 100, acho que todo mundo ou quase todo mundo, já percorreu esta escala de um extremo ao outro. Se uma pessoa não aprende a ser compassiva, por não ter recebido compaixão, como não esperar que esta pessoa se torne cruel? Tudo é questão de ciência: para toda causa há um efeito e vice versa. Infelizmente, crianças e jovens expostos à crueldade, tendem a ser crueis. Isto é fato. Permitir que jovens criminosos de 16 anos sejam encarcerados, em um sistema prisional que já não suporta mais pessoas é muito cruel. É selar o destino de um ser humano que ainda está em fase de crescimento, de forma que ele nunca tenha a chance de se regenerar, de aprender que existem outras possibilidades na vida para ele. Quando a sociedade tapa o sol com a peneira desta maneira é que ela atinge o extremo mais alto na escala da crueldade. A sociedade é por tanto, não só cruel e burra, como estúpida também.

Mas, embora a sociedade seja burra, incompetente e cruel, a sociedade só quer gente boa andando por aí! Que paradoxo! E voltando à minha refelxão inicial, há um outro paradoxo incrível, que apenas reitera minha sentença anterior: a questão da licença parental. Há um tempo tive o desprazer de ler um trecho de uma entrevista com aquele pulha chamado Jair Messias Bolsonaro, Deputado Federal pelo estado do Rio de Janeiro. Este cidadão afirmou que acha a licença maternidade injusta, já que quando a mulher tira licença maternidade ela se torna um fardo para o empresário. Para ser justa, o que ele disse exatamente foi o seguinte: “eu (UM PULHA) tenho pena do empresário no Brasil, porque é uma desgraça você ser patrão no nosso país, com tantos direitos trabalhistas” (hello?!). “Entre um homem e uma mulher jovem, o que o empresário pensa? Poxa, essa mulher tá com aliança no dedo, daqui a pouco engravida, seis meses de licença-maternidade…“. Então, este deputado que diz apoiar a família e tal, não compreende que, um bom trabalhador necessita enquanto criança de cuidado parental, seja da mãe, do pai, da avó ou seja lá de quem for? Será que ele não vê que uma criança que é bem cuidada provavelmente será um adulto que prezará pela vida do próximo? Além disso, é obrigação desta sociedade, que acho muito incoerente, dar suporte à família, que é “a fábrica de gente”. Deixe uma criança desamparada (em qualquer aspecto) e espere encontrar no futuro um adolescente/ adulto problemático. Dói saber que o Rio de Janeiro votou em massa em um homem que, na verdade, não sabe nada sobre a importância da família na composição de uma sociedade justa. Ele, que se diz religioso e é declaradamente homofóbico, planta discórdia e valores sociais chulos. Quisera que indivíduos assim fossem eliminados ao longo da evolução. Me resta a certeza de que eles serão, pois evolução tarda, mas não falha nunca.

Já foi evidenciado cientificamente que o cérebro de um psicopata é diferente do cérebro de uma pessoa normal. Por exemplo, o sistema paralímbico de um psicopata é subdesenvolvido. A psicopatia pode também ser adquirida após um acidente que venha a danificar áreas específicas do cérebro. É lógico então inferir que um bebê, criança ou adolescente exposto à malnutrição, agreções físicas na cabeça e/ou ao uso de substâncias químicas nocivas durante o período de suas vidas em que há a maior taxa de crescimento de tecido nervoso, sejam mais propensos a desenvolver psicopatias. Em geral e clinicamente falando, psicopatas não compreendem compaixão, afeto ou amor. Eles simplesmente não entendem. E dado que a região do cérebro de um psicopata responsável pelo processamento de emoções, busca de objetivos e auto-controle é fisicamente menor e fisiologicamente diferente, é duvidoso que a psicopatia tenha cura definitiva ou possa ser efetivamente remediada.

Em resumo, creio que a sociedade de maneira geral, mas, em especial a sociedade brasileira, tenha se tornado uma fábrica bastante eficiente de psicopatas. Embora eu creia que o potencial criminoso de cada um resida em parte na carga genética que o indivíduo carrega, como bióloga eu sei que genes podem ou não ser despertos por fatores variados. Sobretudo, mente e cérebro são duas “coisas” distintas. Uma boa mente resulta de um cerébro bem treinado, crescido, desenvolvido e bem direcionado, exposto ao conhecimento e às situações de aprendizado emocional, com responsabilidade e, ao mesmo tempo, sem limitações.

O dito popular “corpo são, mente sã” é bastante sábio já que a boa nutrição, exercícios físicos, abrigo e proteção, possibilitam o desenvolvimento saudável do sistema nervoso.

Então, para produzir seres humanos saudáveis, fortes, bem educados e de bom caráter é preciso muito mais que leis, regras, religião e política. É preciso HUMANIDADE do começo ao fim. É preciso COMPAIXÃO. E, sobretudo, é preciso assumir que o modelo atual de sociedade que existe em quase todo o mundo é cruel e desumano, porque é fundamentado na ignorância e em valores absolutamente retrógrados e ultrapassados.

 

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